O que é a Lagoa Glacial Jökulsárlón e por que ela vai te encantar
Updated: 2 days ago
A lagoa glacial Jökulsárlón fica no sudeste da Islândia, a cerca de cinco horas de carro de Reykjavík. E nada vai te preparar para a experiência que é visitá-la. Você para na beira da estrada, abre a porta e encontra somente água, gelo e vento. À sua frente, icebergs enormes flutuam numa lagoa com um tom de azul que você dificilmente terá visto antes na natureza. Uns são brancos, outros também são azuis, e alguns deles tem manchas pretas espalhadas pela superfície. Todos eles se movem lentamente em direção ao mar.
É bem provável que você fique pensando na Jökulsárlón por muito tempo depois que voltar.
Mudanças climáticas: a Jökulsárlón não deveria existir
A Jökulsárlón tem menos de cem anos. O que existe hoje como uma das paisagens mais fotografadas da Islândia era, até a década de 1930, parte sólida do glaciar Breiðamerkurjökull, um trecho da Vatnajökull, a maior geleira da Europa.
O Breiðamerkurjökull chegava até o oceano atravessando o que hoje é a Ring Road, a estrada que circunda toda a Islândia, e seguia em direção ao Atlântico. Tudo era gelo.
Com o aumento das temperaturas globais, o glaciar começou a recuar. Devagar no começo, depois com mais velocidade. A água do degelo foi se acumulando na depressão que o próprio gelo havia escavado na rocha ao longo de milênios. Na década de 1980, o Breiðamerkurjökull ainda chegava à estrada. Hoje, recuou tanto que a lagoa tem 18 km² de área e 248 metros de profundidade no ponto mais fundo, tornando-se o lago mais profundo da Islândia. E continua crescendo.
Ou seja, a Jökulsárlón é uma das paisagens naturais mais impressionantes do planeta, e ela só existe porque o clima está mudando.
Os icebergs: o que você está vendo de verdade
Os blocos de gelo que flutuam na lagoa se desprendem da face do Breiðamerkurjökull num processo chamado calving. Isso quer dizer que a geleira avança sobre a água, a pressão fratura o gelo, e pedaços dele acabam se soltando. Alguns têm o tamanho de um apartamento de três andares, outros são pequenos o suficiente pra gente carregar.
O azul que aparece em muitos deles não é exatamente a cor que a gente está acostumado. Isso acontece porque, quando o gelo é submetido a pressão durante por décadas, as bolhas de ar são expulsas e as moléculas se reorganizam de forma tão densa que absorvem todas as frequências de luz exceto o azul. Acredita-se que o gelo da lagoa pode ter até mil anos. Portanto, a cor que você vê na Jökulsárlón é ar preso há um milênio.
As faixas escuras que cortam alguns blocos são cinzas vulcânicas. A Islândia tem mais de 30 sistemas vulcânicos ativos, e ao longo dos séculos as erupções depositaram camadas de cinza sobre o glaciar. Quando o gelo se fragmenta, essas marcas aparecem como veios negros — um registro geológico de erupções que aconteceram antes de qualquer pessoa viva ter nascido.
A Diamond Beach fica do outro lado da estrada

A Jökulsárlón não é um lago fechado. Ela está ligada ao oceano por um canal de menos de 250 metros de comprimento. As marés entram e saem. Os icebergs menores saem pela foz, são capturados pelas ondas do Atlântico e empurrados de volta para a areia. É assim que nasce a Diamond Beach.
Do outro lado da Ring Road, a praia de areia vulcânica preta fica coberta de pedaços de gelo que variam de alguns centímetros a dois metros de altura. A areia é negra porque vem de basalto, rocha vulcânica. O gelo é translúcido, polido pelas ondas, com um brilho que lembra cristal lapidado — daí o nome. O contraste visual é quase artificial, como se um fotógrafo tivesse colocado aqueles blocos ali para fazer uma foto.
Nenhum dia é igual ao outro. O que o oceano devolve para a praia depende do que saiu da lagoa, da força das ondas, da maré. Em alguns dias a praia está quase limpa. Em outros, há centenas de blocos espalhados por quilômetros. Quem vai de manhã cedo, antes dos outros visitantes, encontra os blocos intactos, ainda com a luz baixa da manhã islandesa refletindo em cada face.
Tem foca. Tem pato. Tem cinema.
A lagoa tem população residente. Focas usam a Jökulsárlón como área de alimentação, especialmente no inverno, quando chegam para pescar na foz entre a lagoa e o oceano. Aparecem nadando entre os icebergs ou simplesmente dormindo em cima deles, completamente indiferentes aos turistas. Já no verão, são principalmente patos e outras aves migratórias habitam a área.
A fauna é o tipo de detalhe que muita gente não pesquisa antes de ir e que surpreende quando aparece. Há algo muito engraçado em estar olhando para uma paisagem de outro mundo e perceber uma foca bocejando num iceberg a dez metros de você.
A Jökulsárlón também acumulou um currículo cinematográfico considerável ao longo dos anos. A lagoa apareceu em dois filmes de James Bond — A View to a Kill e Die Another Day — e também em Batman Begins e Tomb Raider. Não é difícil entender por quê: é um cenário que parece construído, mas é completamente real.
Verão ou inverno: dois lugares completamente diferentes
A Jökulsárlón no verão e no inverno são experiências totalmente distintas.
No verão, entre maio e outubro, o sol mal se põe. Para se ter uma ideia, às onze da noite ainda há luz suficiente para fotografar. A lagoa está acessível e o passeio de barco entre os icebergs ocorre regularmente. Há duas opções, um barco anfíbio por volta de 45 euros ou um zodiac por cerca de 75 euros, que se aproxima mais da geleira. A Diamond Beach está cheia de visitantes de tarde, mas se você acordar cedo e for por volta das seis da manhã, ela pertence quase que só a você.
No inverno, entre outubro e março, a atmosfera muda completamente. A luz é escassa, são quatro horas por dia em dezembro. As temperaturas caem, o vento é forte, e a neve cobre tudo ao redor. Em compensação, o céu escuro cria as condições para a aurora boreal aparecer sobre os icebergs. É uma das imagens mais buscadas e mais raras da Islândia. Além disso, o glaciar Breiðamerkurjökull desenvolve cavernas de gelo no inverno.
Tratam-se de formações temporárias com paredes azuis que mudam de formato a cada temporada e só existem enquanto as temperaturas permanecem baixas.
Como chegar na Lagoa Glacial Jökulsárlón saindo de Reykjavík e quanto tempo ficar
A Jökulsárlón fica a cerca de 390 km de Reykjavík, seguindo pela Ring Road em direção ao sudeste da ilha. De carro, são aproximadamente cinco horas de uma viagem sem paradas, pela mesma estrada que corta cachoeiras, praias de areia negra, geleiras e campos de lava. O endereço oficial fica dentro do Parque Nacional de Vatnajökull. Há estacionamento pago no local, em torno de 1.000 ISK, pago pelo aplicativo Parka.
É possível fazer uma day trip saindo de Reykjavík, mas o percurso pode ser cansativo. A ida e volta somem 780 km e cerca de 15 a 16 horas dentro de um carro ou ônibus, incluindo as paradas na Costa Sul. Isso significa que você vai chegar cansado, ficar uma hora e dirigir no escuro. É possível, mas não é a melhor forma de visitar uma das paisagens mais extraordinárias do mundo.
A alternativa que faz mais sentido é reservar pelo menos dois dias para a Costa Sul, com hospedagem na região. Você pode ir à Diamond Beach no final da tarde, quando a luz é mais bonita, voltar de manhã para ver a lagoa com calma, e ainda ter tempo para as outras paradas do caminho sem olhar o relógio.
Como ver a Jökulsárlón com guia em português
A Islândia tem muito conteúdo escrito em inglês, guias que falam inglês e tours que partem de Reykjavík em inglês. Para brasileiros, isso pode até funcionar, mas há uma diferença grande entre entender o que está sendo dito e ouvir alguém te explicar o processo de calving, a história do glaciar, a geologia da areia negra na mesma língua em que você pensa.
O tour de 3 dias e 2 noites da Untold pela Costa Sul foi construído exatamente para esse percurso, com guia falando português, ritmo pensado para viagens imersivas e significativas e hospedagem planejada para estar perto dos pontos certos na hora certa. A Jökulsárlón e a Diamond Beach fazem parte do pacote, com tempo para ver o local com calma.
Se você está pensando em fazer a Costa Sul, esse é o artigo que explica o tour completo em detalhe.



