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Caverna de gelo na Islândia: como funciona? Vale a pena a visita?

Aug 27
7 min read

Updated: 4 days ago

A caverna de gelo que você vai visitar na Islândia não existia no inverno passado. E não vai existir no inverno que vem. Todo verão, a água do degelo abre túneis novos dentro da geleira. Vem o frio do outono e congela tudo de novo. O resultado é uma caverna diferente, em outro ponto do gelo, com outro formato e outra cor. 


Os guias locais passam setembro e outubro vasculhando a geleira atrás das formações da temporada, avaliando qual delas é estável o bastante para receber gente. É provavelmente a única atração turística do planeta com prazo de validade de alguns meses. Aquela foto que te fez sonhar com esse passeio mostra um lugar que já derreteu. 


Essa efemeridade muda tudo no planejamento. Não dá para escolher a caverna com antecedência, não dá para ir por conta própria e não dá para ir em qualquer época do ano. A seguir, você vai descobrir como o passeio funciona de verdade, quanto custa, a diferença entre os três tipos de "caverna de gelo" que vendem por aí e, com a franqueza de sempre, em quais situações não vale a pena insistir. 


O que é uma caverna de gelo e por que ela é tão azul 


Uma caverna de gelo é o rastro que a água deixa dentro de uma geleira. Durante o verão islandês, o degelo forma rios que correm por baixo e por dentro da massa de gelo, escavando galerias no caminho até o mar. Quando a temperatura despenca de novo, os rios secam ou congelam e as galerias ficam ali, vazias e de repente visitáveis. O que os tours visitam é basicamente o leito de um rio que existiu alguns meses antes. 


O azul tem explicação física, e ela é boa de contar dentro da caverna. O gelo de uma geleira passou séculos sendo comprimido pelo peso das camadas de cima, um processo que expulsa quase todas as bolhas de ar. Sem ar, o gelo fica denso e translúcido, absorve os tons vermelhos e amarelos da luz e devolve só o azul. Quanto mais antigo e comprimido o gelo, mais intenso o tom. Você estará cercado por água que congelou séculos atrás, em alguns trechos há mais de mil anos, muito antes de o Brasil existir como país. 


A paisagem no entorno também rende boas imagens. O caminho até a geleira atravessa um deserto de pedra e cinza vulcânica que parece cenário de ficção científica, e não por acaso. A região das geleiras do sul islandês serviu de locação para Interstellar, que aproveitou essa aparência extraterrestre.


Cavernas de Gelo na Islândia: Natural, Katla ou túnel artificial 

O termo "Caverna de gelo na Islândia" é um guarda-chuva que cobre três experiências bem diferentes entre si, com preços, temporadas e níveis de encanto distintos. 


A primeira e mais famosa é a caverna natural do Vatnajökull, a maior geleira da Europa, que cobre cerca de 8% do território islandês. As formações da temporada aparecem quase sempre na Breiðamerkurjökull, uma língua de gelo que desce do Vatnajökull e termina na lagoa de Jökulsárlón, de onde os tours partem. É a caverna das fotos icônicas, a do azul translúcido, geralmente batizada de Crystal Cave ou Sapphire Cave pela operadora que a encontrou naquele ano. Só existe no inverno. 


A segunda é a caverna do vulcão Katla, embaixo da geleira Mýrdalsjökull, perto da vila de Vík. Por estar em altitude maior e em condições específicas, é vendida o ano inteiro. O visual é outro, um gelo rajado de preto pelas camadas de cinza vulcânica, menos cartão-postal e mais filme de suspense. Quem viaja no verão e faz questão de entrar numa caverna acaba aqui, e a experiência é legítima, desde que se vá sabendo que o azul cristalino das fotos não é esse. 


A terceira nem caverna é. O Into the Glacier, no Langjökull, segunda maior geleira do país, é um túnel escavado por máquinas em 2015, com salas iluminadas artificialmente e até uma capela lá dentro. Funciona o ano todo, é estável, seguro e confortável. Também é, na nossa opinião, a versão mais domesticada das três, uma experiência de museu dentro de uma obra de engenharia. Tem seu público e seu valor, mas quem compra um túnel artificial achando que vai viver a cena da Crystal Cave sai frustrado. 


Se a sua viagem cai entre novembro e março, a escolha é simples. A caverna natural do Vatnajökull é a experiência que justifica o hype, e as outras duas são substitutas para quem não pode ir na época certa. 


Quando dá para visitar as cavernas de gelo da Islândia 


A temporada das cavernas naturais vai de novembro a março, com operadoras abrindo em meados de outubro e algumas esticando até o início de abril quando o frio colabora. Fora dessa janela, as cavernas do Vatnajökull simplesmente não existem, estão alagadas ou instáveis demais para receber visitas. 


Essa regra virou lei não escrita depois de uma tragédia. Em agosto de 2024, uma parede de gelo colapsou sobre um grupo de turistas na Breiðamerkurjökull, matando um visitante americano e ferindo gravemente a noiva dele, que estava grávida. O tour acontecia em pleno verão, com a geleira derretendo, numa área que a avaliação de risco do parque nacional já apontava como perigosa. Guias experientes vinham criticando publicamente a prática de operar cavernas naturais fora do inverno, e o acidente forçou a Islândia a rever as regras do setor. A lição para quem viaja é que a caverna natural é um programa de inverno, e desconfie de quem prometer o contrário. 


O lado bom de amarrar a viagem a essa janela é que ela coincide em cheio com a temporada de aurora boreal. As mesmas noites longas e escuras que mantém a caverna congelada são as que aumentam suas chances de ver o céu verde. Dá para fazer os dois na mesma viagem, muitas vezes no mesmo dia. 


Como funciona o tour pelas cavernas de gelo da Islândia 

O ponto de partida clássico é o estacionamento de Jökulsárlón, a lagoa glaciar que já é uma atração por si só, com icebergs desgarrando da geleira e flutuando rumo ao mar. Dali você embarca num super jeep, aqueles caminhões modificados com pneus de outro mundo, para uns 30 minutos de estrada off-road até a borda da geleira. A paisagem do trajeto vale metade do ingresso. 


Na chegada, o guia distribui capacete e grampos para prender na bota, e o grupo caminha entre 20 e 30 minutos até a entrada da caverna, num terreno de pedra e gelo que pede um mínimo de mobilidade mas nada de preparo atlético. Lá dentro, o tempo livre gira em torno de 30 a 60 minutos para andar, fotografar e ouvir o guia explicar como aquela formação nasceu. O passeio inteiro dura de duas horas e meia a três horas. 


Dois avisos importantes: primeiro, você não estará sozinho. A caverna da temporada é a mesma para todas as operadoras da região, então é normal dividir o espaço com outros grupos. Tirar foto sem ninguém no quadro exige paciência. Segundo, a cor do gelo varia com o dia. Céu encoberto e teto coberto de neve fresca deixam o interior mais acinzentado, enquanto luz direta sobre gelo exposto produz o azul vivo que você deve ter visto nas fotos. É importante saber disso para não se decepcionar. 


Sobre ir por conta própria, nem cogite. As cavernas ficam em áreas sem acesso para carros comuns, o gelo pode colapsar ou alagar sem aviso e a caverna segura de hoje pode não ser a de amanhã. Já morreu gente tentando. O guia certificado escolhe a formação do dia com base nas condições, e essa avaliação é o que você está pagando junto com o transporte. 


Quanto custa 

O tour básico saindo de Jökulsárlón, com super jeep, equipamento e visita à caverna, custa entre 21.700 e 25.000 coroas islandesas por pessoa, algo entre R$ 950 e R$ 1.100 no câmbio de julho de 2026. Versões estendidas, que somam caminhada no glaciar ou passeio de bote entre os icebergs da lagoa, ficam na faixa de 30.000 a 40.000 coroas, ou de R$ 1.300 a R$ 1.750. 


É caro, como quase tudo na Islândia. O contraponto é que o país entrega uma quantidade absurda de natureza gratuita, das cachoeiras às praias de areia preta, e a caverna de gelo é das poucas experiências que não têm versão grátis nem improvisada. Se houver espaço no orçamento para um único passeio pago no inverno islandês, esse costuma ser o que as pessoas menos se arrependem de ter feito. 


Vale a pena? 

Depende do formato da sua viagem, e a resposta honesta tem três camadas. 


Vale muito se você viaja entre novembro e março, se topa dormir uma noite na região de Jökulsárlón ou encarar o trajeto longo desde Reykjavík, e se o orçamento acomoda um passeio pago sem sacrificar o resto. Nesse cenário, a caverna natural do Vatnajökull é uma das experiências mais singulares que a Islândia oferece, e olha que a concorrência interna é dura. 


Vale com ressalvas se a viagem é no verão. As opções que restam, Katla e o túnel do Langjökull, são interessantes, mas são outra coisa. Por isso, talvez faça mais sentido guardar a experiência para uma futura viagem de inverno do que gastar alto numa versão que não é aquela. 


Como encaixar a caverna no seu roteiro 

O desafio logístico da caverna de gelo é que Jökulsárlón fica a quase cinco horas de carro de Reykjavík, o que torna o bate-volta uma péssima ideia no inverno, com estradas geladas e poucas horas de luz. A solução natural é diluir o trajeto num roteiro de alguns dias pela Costa Sul, dormindo no caminho. 


É exatamente assim que funciona o tour South Coast de 3 dias e 2 noites da Untold na versão de inverno. O segundo dia é dedicado à região de Jökulsárlón e inclui o tour de caverna de gelo saindo da lagoa, no mesmo dia em que você vê os icebergs e a Diamond Beach, com a vantagem de fazer tudo isso com guia em português. 


O roteiro ainda passa por Skógafoss, Reynisfjara, o Lava Show em Vík, o desfiladeiro de Fjaðrárgljúfur, Vestrahorn e um passeio de ATV até o famoso avião abandonado de Sólheimasandur, com hospedagem, jantares e cafés da manhã incluídos. Para entender o roteiro completo dia a dia, temos um guia dedicado à Costa Sul em 3 dias aqui no blog.

 
 

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