Península de Snæfellsnes: a Islândia que Jules Verne imortalizou
Updated: 2 days ago
Em 1864, um professor alemão excêntrico chamado Otto Lidenbrock abriu um manuscrito velho em Hamburgo e encontrou uma mensagem cifrada. O texto, escrito em alfabeto rúnico por um alquimista islandês do século XVI chamado Arne Saknussemm, revelava um segredo: existe uma passagem para o centro da Terra, e a entrada fica na cratera de um vulcão na Islândia. O nome do vulcão era Sneffels.

Jules Verne publicou Viagem ao Centro da Terra sem jamais ter pisado na Islândia. Mas escolheu o Snæfellsjökull, um estratovulcão de 1.446 metros coberto de glaciar na ponta de uma península remota a noroeste de Reykjavík, com a precisão de quem conhecia a geologia, a mitologia e a estranheza visual do lugar.
A Península de Snæfellsnes tem, de fato, características de outro mundo. Os campos de lava negra, as crateras abertas, o glaciar que paira acima de tudo, o cenário inteiro dá a impressão de uma Terra que ainda não terminou de se formar.
Isso foi em 1864. Hoje, o lugar que Verne escolheu virou parque nacional, o glaciar que ele usou como porta de entrada para um mundo subterrâneo fictício está diminuindo por causa do aquecimento global, e a península ao redor se tornou um dos roteiros mais populares da Islândia. Snæfellsnes concentra glaciar, crater, praia com focas, montanha de filme e campos de lava num percurso de 90 quilômetros que os islandeses chamam de "Islândia em miniatura". E você vai entender agora o porquê do apelido.
Snæfellsjökull: o vulcão que Verne escolheu para o fim do mundo
Na mensagem de Saknussemm, a entrada para a cratera certa só fica visível numa data específica: quando a sombra do pico Scartaris aponta para ela, no dia 28 de junho. Se você não estiver lá naquele dia, nada feito. Verne era obcecado em dar verossimilhança à ficção científica, e esse detalhe não foi diferente. O Snæfellsjökull não é um cenário inventado para servir à história, mas um lugar real escolhido como uma das entradas do mundo.
O vulcão existe há cerca de 700 mil anos. É um estratovulcão, formado por camadas alternadas de lava solidificada e tefra, o material expelido em erupções. A última grande erupção foi há aproximadamente 1.800 anos. Hoje o cume está coberto por um glaciar que tem cerca de 200 metros de espessura no ponto mais espesso, e a paisagem ao redor é um campo de lava que cobre décadas e séculos de atividade vulcânica. O Parque Nacional de Snæfellsjökull, criado em 2001, protege os 170 km² que circundam o glaciar. É o único parque nacional da Islândia com costa, o que significa que a faixa de proteção vai do cume gelado até o mar.
Verne nunca pisou aqui, mas quem chega até a ponta da península e olha para o vulcão entende por que ele escolheu esse lugar.
O que fazer na Península de Snæfellsnes
A estrada 54 circunda toda a península. A lógica do roteiro é simples: você sai de Reykjavík, entra na península pelo sul ou pelo norte, percorre o anel e volta. A maioria das paradas está a poucos minutos da rodovia principal, e o percurso completo cabe em um dia longo ou em dois dias com mais calma.
Snæfellsjökull e a cratera Saxhóll
O parque nacional fica na ponta oeste da península, e o acesso principal ao glaciar é pela Rota 574, que contorna a base do vulcão. Se você entrar no parque, há um centro de visitantes em Malarrif. Há banheiros ali, e essa informação é preciosa, já que a região tem pouca infraestrutura.
A cratera Saxhóll é uma das paradas mais interessantes dentro do parque. Não tem a grandiosidade do Snæfellsjökull, mas tem uma acessibilidade que poucas crateras na Islândia oferecem: existe uma escada de metal que sobe pelo flanco da cratera até o
topo, e lá de cima a vista abrange os campos de lava, o glaciar ao fundo e, em dias claros, a costa. A subida leva uns dez minutos e lá em cima venta bastante, vá preparado.
O glaciar em si pode ser acessado com guia credenciado para caminhadas e escalada. Não é recomendado subir sem acompanhamento qualificado, especialmente nos meses de inverno, quando a neve esconde fendas e o tempo muda rápido. Os tours de glaciar saem de Arnarstapi e de outros pontos da ponta oeste da península.
Kirkjufell

A montanha mais fotografada da Islândia fica na costa norte da península, acima do vilarejo de Grundarfjörður. O nome significa "montanha da igreja", por causa de seu formato cônico. Visto de certas posições, o pico lembra um campanário. Kirkjufell tem 463 metros de altura e é um nunatak, ou seja, uma formação rochosa que resistiu às glaciações em vez de ser modelada por elas, o que contribui para a forma incomum.
Ao lado da montanha, a cachoeira Kirkjufellsfoss cai em três quedas simultâneas e cria o enquadramento fotográfico mais replicado da Islândia. Em dias com aurora boreal, a cena é das que ficam pra sempre na memória.
Kirkjufell apareceu nas temporadas 6 e 7 de Game of Thrones como a "Montanha em Forma de Flecha" no território além da Muralha. As cenas foram filmadas aqui, mas os atores foram superimpostos digitalmente. Nenhum ator de GoT pisou de fato ao lado da montanha.
O acesso é simples. Há um estacionamento sinalizando perto da estrada principal a oeste de Grundarfjörður. A trilha ao redor da base é suave e pode ser feita em qualquer época do ano, embora no inverno exija atenção ao gelo. A subida ao topo é mais técnica e deve ser feita com equipamento adequado.
Ytri Tunga e as focas
Na costa sul da península, a praia de Ytri Tunga é uma das poucas de areia dourada num país de praias negras. Mas o que atrai gente até ali é a colônia de focas que vive nas rochas ao longo da praia.
As focas mais vistas por ali são as focas-comuns (Phoca vitulina) e as focas-cinzentas. A melhor época para vê-las é entre maio e julho, quando a maré baixa deixa mais rochas expostas e os filhotes nascem nas pedras. Fora dessa janela, há sempre a
chance de encontrar alguns indivíduos nas rochas, mas o número é menor. A distância recomendada é de pelo menos 50 metros para não perturbar os animais. Leve binóculos.
Ytri Tunga é uma propriedade privada, mas está aberta aos visitantes. Não há infraestrutura nenhuma, o que significa que você precisa chegar com o que vai precisar, incluindo o banheiro resolvido.
Arnarstapi, Djúpalónssandur e Búðakirkja
Arnarstapi é um pequeno vilarejo na costa sul, base para trilhas ao longo das falésias basálticas que correm até Hellnar. O percurso entre os dois vilarejos tem cerca de 2,5 quilômetros e passa por formações rochosas e ninhos de aves marinhas. O arco natural Gatklettur, uma formação de rocha basáltica em forma de anel, fica nos arredores de Arnarstapi.
Já Djúpalónssandur é uma praia de seixos pretos na base do Snæfellsjökull com quatro pedras de levantamento viking. Os pescadores islandeses usavam essas pedras para testar a força dos candidatos a tripulantes. Quem conseguisse levantar a maior, uma rocha de 155 quilos chamada Fullsterkur, entrava no barco. Junto às pedras, há ferrugem espalhada pela praia, restos de um navio britânico que naufragou aqui em 1948.
Búðakirkja é uma das imagens mais replicadas da Islândia. Você certamente já viu uma igrejinha preta, sozinha num campo de lava, com o glaciar ao fundo. Foi construída originalmente no século XVIII, demolida, e a versão atual data de 1848. O acesso é livre.

Por que visitar Snæfellsnes com um guia que fala português
Tem muita coisa interessante sobre Snæfellsnes que você não vai aprender só olhando para ele. A geologia vulcânica, a história literária, o folclore islandês que dá nomes aos lugares e às formações rochosas são conhecimentos que aprofundam a viagem, e um audioguia em inglês não vai conseguir te entregar da mesma forma.
A experiência de ouvir alguém contar uma história no seu próprio idioma, com o contexto certo, é bem diferente de só ler uma legenda.
A Untold opera tours na Snæfellsnes com guias lusófonos que conhecem a península de perto. O tour cobre os pontos principais da Snæfellsnes com tempo para explorar cada parada com tranquilidade, sem o ritmo corrido dos ônibus turísticos.
Conheça o Tour Snæfellsnes da Untold: roteiro completo pela península, com guia em português, saindo de Reykjavík.
Como chegar, quando ir e o que saber antes
A Península de Snæfellsnes fica a cerca de 170 quilômetros de Reykjavík, aproximadamente duas horas de carro pela Rota 1 até Borgarnes e depois pela Rota 54 entrando na península. A estrada é pavimentada e acessível durante a maior parte do ano, inclusive no inverno, o que coloca Snæfellsnes num grupo pequeno de regiões islandesas que funcionam bem em qualquer estação.
No verão, você tem mais horas de luz para percorrer as paradas com calma, e a colônia de focas de Ytri Tunga está no pico de atividade. No inverno, a paisagem coberta de neve tem outra qualidade visual, e a chance de ver aurora boreal sobre o Kirkjufell compensa os dias mais curtos. Em dezembro e janeiro, a luz dura cerca de cinco horas. Em março, já são doze horas. Snæfellsnes no inverno é viável, mas exige um roteiro mais enxuto.
Para percorrer a península por conta própria, um carro comum é suficiente na Rota 54 e nas estradas principais. Para acessar alguns pontos dentro do Parque Nacional, especialmente no inverno, um 4x4 é mais seguro. A previsão do tempo na Islândia muda com velocidade, e o site veður.is dá atualizações a cada hora. O estado das estradas pode ser verificado em road.is.
Não existe hotel ou restaurante em cada quilômetro da península. Os vilarejos com mais estrutura são Stykkishólmur, no norte, e Grundarfjörður, próximo ao Kirkjufell. Se for passar mais de um dia, vale reservar hospedagem nesses dois pontos com antecedência, especialmente no verão.
Perguntas frequentes sobre a Snæfellsnes
O que fazer na Península de Snæfellsnes na Islândia?
O roteiro principal cobre o Parque Nacional Snæfellsjökull com o glaciar e a cratera Saxhóll, a montanha Kirkjufell com a cachoeira Kirkjufellsfoss, a praia de Ytri Tunga com a colônia de focas, as falésias de Arnarstapi, a praia de seixos de Djúpalónssandur e a igrejinha preta de Búðakirkja. O percurso completo saindo de Reykjavík cabe num dia longo ou em dois dias com mais tranquilidade.
Qual é a ligação entre Jules Verne e a Islândia?
Em Viagem ao Centro da Terra, publicado em 1864, Verne escolheu o vulcão Snæfellsjökull, na Península de Snæfellsnes, como a entrada para o mundo subterrâneo. Na história, a passagem só fica visível quando a sombra do pico Scartaris aponta para a cratera certa, no dia 28 de junho. O Snæfellsjökull é real, existe há cerca de 700 mil anos e pode ser visitado hoje.
A Snæfellsnes fica longe de Reykjavík?
A entrada da península fica a cerca de 170 quilômetros de Reykjavík, aproximadamente duas horas de carro pela Rota 1 e depois pela Rota 54. É possível fazer a visita como um day trip saindo da capital.
É possível visitar Snæfellsnes no inverno?
Sim. A Snæfellsnes é uma das regiões mais acessíveis da Islândia no inverno. A estrada principal permanece aberta na maior parte do tempo, e as atrações principais ficam próximas à rodovia. A paisagem coberta de neve tem uma qualidade visual que não existe no verão, e no inverno há chance de ver aurora boreal.



