Glaciares da Islândia: os melhores passeios e o que esperar
Updated: 5 days ago
Os glaciares da Islândia cobrem cerca de 11% do território do país, o que significa que uma em cada dez partes daquela ilha é gelo compactado há séculos, às vezes há milênios. É tanto gelo que os vikings batizaram o país de Terra do Gelo. E ao contrário do que a escala sugere, caminhar em cima de um deles não exige nenhum preparo de alpinista. Exige um guia, um par de crampons e a disposição de encarar um dos terrenos mais estranhos e bonitos que existem no planeta.
Este te conta quais são os principais glaciares que dá para visitar na Islândia, qual a diferença real entre os passeios que se fazem neles e o que está acontecendo com todo esse gelo, sem alarmismo e sem fingir que não está acontecendo nada.
O que dá para fazer nas geleiras da Islândia
Quem começa a pesquisar passeios de glaciar na Islândia esbarra rápido numa sopa de nomes em inglês. Glacier walk, glacier hike, ice climbing, ice cave. Parece tudo variação da mesma coisa e não é, e escolher errado significa pagar por uma experiência diferente da que você imaginava.
A caminhada numa geleira, o tal glacier walk, é a porta de entrada. Você recebe crampons, aquelas garras de metal que se prendem na sola da bota, um capacete e às vezes um piolet mais decorativo que funcional, e segue em fila atrás de um guia que conhece o terreno e sabe onde o gelo aguenta peso.
A caminhada dura entre uma e três horas na maioria dos formatos e não exige experiência prévia nenhuma. Se você consegue subir uma ladeira íngreme, consegue fazer um glacier walk. No caminho, o guia mostra fendas que descem dezenas de metros, rios de degelo correndo por dentro do gelo e as texturas que fazem uma geleira parecer outro planeta.
A escalada no gelo é o degrau seguinte. Com cordas, dois piolets e instrução do guia, você escala uma parede vertical. É fisicamente exigente e costuma aparecer como extensão opcional de alguns glacier walks. Para quem gosta de esporte e de adrenalina, é uma das experiências mais memoráveis da Islândia. Para quem só quer ver o gelo de perto, é dispensável.
Já a caverna de gelo é outra categoria. Em vez de caminhar sobre o glaciar, você entra nele. As cavernas se formam no verão, quando a água do degelo escava túneis dentro do gelo, e só ficam estáveis e visitáveis no inverno, em geral de outubro a abril.
Lá dentro, a luz atravessa paredes de gelo azul que podem ter perto de mil anos. É uma experiência mais contemplativa que física, e escrevemos um guia completo sobre as cavernas de gelo da Islândia explicando como funciona a visita e por que nenhuma caverna é igual à do ano anterior.
Vatnajökull, a geleira gigante do sudeste da Islânda

Todo assunto de gelo na Islândia passa mais cedo ou mais tarde pelo Vatnajökull. Ele cobre cerca de 8% do país e costuma ser citada como a maior geleira da Europa. Do seu corpo central descem mais de trinta línguas de gelo, cada uma com nome próprio, e é nessas línguas que acontecem os passeios.
A porta de entrada clássica é o Parque Nacional de Skaftafell, na Costa Sul, de onde saem caminhadas de vários níveis de dificuldade. Mas o Vatnajökull também é responsável por dois dos cenários mais fotografados da Islândia.
A lagoa glaciar de Jökulsárlón, onde icebergs desprendidos da língua Breiðamerkurjökull flutuam até o mar, e a Diamond Beach, a praia de areia preta onde esses mesmos blocos de gelo encalham como esculturas. Já contamos a história completa de Jökulsárlón em outro artigo, e ela merece ser lida antes da viagem.
É também no Vatnajökull que ficam as cavernas de gelo mais famosas do país. No roteiro de 3 dias pela Costa Sul da Untold, o segundo dia inclui essa sequência, com o passeio de caverna de gelo saindo de Jökulsárlón, a visita à lagoa e à Diamond Beach, e parada em Skaftafell quando o tempo permite. É a região da Islândia onde o gelo deixa de ser paisagem ao fundo e vira o assunto principal do dia.
Sólheimajökull, o mais acessível saindo de Reykjavík

Nem todo mundo tem três dias para dedicar à Costa Sul, e é aí que entra o Sólheimajökull. Ele é uma língua do Mýrdalsjökull, o glaciar que cobre o vulcão Katla, e fica a cerca de duas horas de carro de Reykjavík, entre as cachoeiras Skógafoss e a praia de Reynisfjara. Essa localização fez dele o endereço mais popular de glacier walks do país. É a geleira perfeita para um bate-volta a partir da capital.
O Sólheimajökull tem ainda outra particularidade, menos turística. Ele é um dos glaciares onde o recuo do gelo é mais visível e mais bem documentado da Islândia. Guias que trabalham ali há anos apontam onde a frente de gelo estava uma década atrás, e a distância impressiona.
Onde antes havia gelo, hoje existe uma lagoa que cresce a cada verão. Visitar o Sólheimajökull é, queira você ou não, assistir a uma aula de geologia em tempo real e
também uma das consequências mais palpáveis do aquecimento global. Nosso roteiro de 3 dias passa pela região no último dia, entre Skógafoss e as areias pretas de Sólheimasandur, mas a caminhada sobre esse glaciar específico não faz parte do tour.
Snæfellsjökull, o glaciar de Júlio Verne

O terceiro nome desta lista não é destino de caminhada comercial como os outros dois, e mesmo assim talvez seja a geleira mais famosa da Islândia na história da literatura. Foi pela cratera do Snæfellsjökull que o professor Lidenbrock e seu sobrinho Axel desceram rumo ao centro da Terra no romance de Júlio Verne, publicado em 1864.
Verne nunca pisou na Islândia. Escolheu o vulcão coberto de gelo no mapa, e a escolha foi boa. Em dias limpos, o Snæfellsjökull aparece no horizonte visto de Reykjavík, do outro lado da baía de Faxaflói, a mais de cem quilômetros de distância.
O glaciar coroa a ponta da península de Snæfellsnes e é a presença constante de qualquer viagem por ali. As formações de lava de Djúpalónssandur, os penhascos de Arnarstapi e as torres de pedra de Lóndrangar ficam literalmente aos pés dele, e todas são paradas do tour de Snæfellsnes da Untold. Quem quiser entender por que a península é chamada de Islândia em miniatura pode ler nosso guia completo de Snæfellsnes, que conta essa história toda.
O que está acontecendo com as geleiras da Islândia
Existe um glaciar islandês que não aparece em nenhum roteiro de viagem, e a razão é desconfortável. O Okjökull, que ficava sobre o vulcão Ok, no oeste do país, perdeu oficialmente o status de glaciar em 2014, quando o glaciologista Oddur Sigurðsson constatou que o gelo já não tinha massa suficiente para se mover sob o próprio peso, que é o que tecnicamente define um glaciar.
No começo do século 20, o Okjökull cobria 15 quilômetros quadrados. Em agosto de 2019, cientistas, moradores e a então primeira-ministra da Islândia subiram a montanha para instalar uma placa de bronze no lugar onde ele existiu. O texto, escrito pelo autor islandês Andri Snær Magnason, se chama Carta ao Futuro e termina com uma frase tocante: “Só vocês saberão se fizemos o que era preciso”.
As geleiras que você vai visitar seguem aí, e vão seguir por muitas décadas. Mas todas estão recuando, e esse recuo faz parte da experiência de visitá-los. As cavernas de gelo mudam de forma e de lugar a cada ano porque o degelo do verão as esculpe de novo.
Como já explicamos, a lagoa de Sólheimajökull não existia há algumas décadas. A ciência islandesa acompanha tudo isso de perto, e quase metade da perda de massa de gelo registrada no país nos últimos 130 anos aconteceu a partir de meados dos anos 1990.
Nada disso é motivo para transformar a viagem numa despedida, e desconfie de quem vende o passeio com o argumento de ver os glaciares antes que acabem. Eles não vão sumir na próxima década. É motivo, isso sim, para olhar para o gelo com outro tipo de atenção. Você não está diante de um cenário congelado no tempo, está diante de algo vivo, que se move, derrete, se refaz e carrega registrado nas suas camadas o clima de mil anos atrás.
Informações práticas para visitar um glaciar na Islândia
As geleiras podem ser visitadas o ano inteiro na Islândia, inclusive no verão, o que surpreende muita gente. A diferença fica por conta das cavernas de gelo, que só abrem de outubro a abril, e das condições de cada estação.
No inverno, os dias são curtos e o vento pode alterar ou cancelar passeios de uma hora para outra. Se o guia decidir que não dá, não dá, e essa é uma decisão a ser respeitada. Já escrevemos sobre o que esperar da Islândia no inverno para quem está montando o roteiro nessa época.
A regra número um não tem exceção: nunca entre num glaciar sem guia. O terreno muda todos os dias, fendas se abrem onde ontem havia gelo firme, e pontes de neve escondem buracos de dezenas de metros. Todos os passeios sérios incluem o equipamento de segurança, e nos tours da Untold os crampons já estão inclusos.
Quanto à roupa, o esquema é o mesmo de qualquer atividade ao ar livre na Islândia. Camadas térmicas, casaco impermeável, calça impermeável e bota de caminhada firme, de cano alto, onde os crampons possam ser presos. Tênis não funciona, e as operadoras costumam recusar quem aparece de tênis. Luvas e gorro fecham o conjunto até no verão, porque em cima do gelo a temperatura despenca e o vento não perdoa.
Como visitar uma geleira na Islândia com guia em português
Boa parte das explicações sobre as geleiras da Islândia se perde quando vem numa língua que não é a sua. A história do Okjökull, o mecanismo das fendas, o motivo de o gelo ser azul, tudo isso é o tipo de conteúdo que transforma uma caminhada bonita numa experiência que você leva para casa.
Os tours da Untold percorrem a Islândia com guias que falam português, do roteiro de 3 dias pela Costa Sul, que inclui a caverna de gelo no Vatnajökull, ao dia inteiro em Snæfellsnes aos pés do glaciar de Júlio Verne.



